Custos com trato soca: R$ 0,34/kg de ATR - O que esse indicador revela sobre a eficiência da sua operação?
Quando falamos em custos no setor sucroenergético, valores expressos em centavos podem transmitir uma falsa sensação de pouca relevância. Afinal, qual seria o impacto de uma diferença de R$ 0,14?
Quando a unidade de análise é em R$/kg de ATR, essa diferença foi impactar bastante no caixa.
Mais importante do que olhar isoladamente para o número é compreender o racional por trás dele. O custo por quilo de ATR permite relacionar o investimento realizado no canavial com aquilo que efetivamente é entregue pela área: toneladas de cana e açúcar total recuperável.
É justamente essa relação que transforma um indicador de custos em uma ferramenta de gestão.
De R$ 0,34 para R$ 0,48/kg de ATR: quanto vale essa diferença?
Dados do Compara Custos, benchmarking do Pecege Consultoria e Projetos, que reúne informações de mais de 110 unidades do setor sucroenergético, espalhadas em 10 estados do país, ajudam a dimensionar essa questão.
No indicador de tratos de soqueira, o custo médio das usinas posicionadas no primeiro quartil (Q1) foi em média de R$ 0,34/kg de ATR. Já entre as usinas do quarto quartil (Q4), o valor médio chegou a R$ 0,48/kg de ATR.
À primeira vista, estamos falando de apenas R$ 0,14/kg de ATR de diferença. Mas, quando transformamos esses números para uma visão por hectare, a dimensão muda:
Q1: R$ 3.784/ha
Q4: R$ 4.586/ha
Diferença: R$ 802/ha
Em uma unidade produtiva com 25 mil hectares de soca, uma diferença dessa magnitude representa potencialmente mais de R$ 20 milhões quando extrapolada para toda a área.
É nesse momento que os centavos deixam de parecer pequenos.
Mas o benchmarking não deve ser interpretado simplesmente como: “preciso gastar R$ 802/ha a menos”. A pergunta correta é outra:
O que faz uma operação produzir um quilo de ATR a um custo menor do que outra?
Custo por hectare não conta toda a história
Analisar somente o R$/ha pode levar a conclusões equivocadas.
Uma operação pode investir menos por hectare e, ainda assim, apresentar um custo elevado por quilo de ATR caso esse menor investimento resulte em perda de produtividade ou qualidade.
Da mesma maneira, uma unidade pode apresentar investimento maior por hectare, mas obter produtividade e qualidade suficientes para diluir esse investimento e alcançar um custo competitivo por quilo de ATR.
Por isso, quando avaliamos tratos de soqueira, três pilares precisam ser analisados conjuntamente.
1. Investimento no manejo da soqueira (R$/ha) Quanto foi investido em tecnologia, insumos, pessoas e operações para conduzir aquela área?
2. Produtividade obtida (TCH) Quantas toneladas de cana por hectare esse investimento ajudou a produzir?
3. Qualidade da matéria-prima (ATR) Quanto açúcar recuperável foi obtido por tonelada de cana produzida?
Esses três componentes precisam conversar entre si.
O desafio não é simplesmente gastar menos
De forma simplificada, podemos pensar o custo dos tratos de soqueira em R$/kg de ATR como uma relação entre o investimento realizado e a produção de ATR obtida por hectare.
Isso significa que existem dois grandes caminhos para melhorar o indicador: reduzir o numerador ou aumentar o denominador.

Reduzir investimento sem critério pode comprometer manejo, nutrição, controle de plantas daninhas, operações e outros fatores que sustentam produtividade e qualidade. Por outro lado, aumentar os gastos sem uma resposta proporcional do canavial também deteriora a eficiência econômica.
É por isso que uma boa gestão de custos não deveria começar com a pergunta:
“Onde podemos cortar?”
Ela deveria começar com:
“Onde estamos investindo e qual retorno produtivo estamos obtendo desse investimento?”
Esse raciocínio muda a discussão de redução de custos para eficiência na aplicação dos recursos.
R$/kg de ATR aproxima custos e produtividade
Uma das vantagens de trabalhar com o indicador R$/kg de ATR é justamente conectar áreas que, muitas vezes, são analisadas separadamente.
O financeiro enxerga o gasto.
A operação enxerga o manejo.
O agrícola acompanha o TCH.
A indústria monitora a qualidade.
Mas, no resultado econômico, tudo isso acontece ao mesmo tempo.
Uma decisão agronômica pode aumentar o R$/ha e, ainda assim, melhorar o R$/kg de ATR caso gere resposta suficiente em produtividade ou qualidade. Da mesma forma, uma redução aparentemente positiva no orçamento pode destruir valor caso provoque uma queda proporcionalmente maior no TCH ou no ATR.
Portanto, custo baixo não é necessariamente sinônimo de eficiência.
Eficiência está na capacidade de transformar os recursos investidos em produção de ATR ao menor custo possível, preservando a sustentabilidade produtiva da operação.
Conhecer o próprio número é apenas o primeiro passo
Calcular corretamente os próprios indicadores é fundamental. Mas existe uma segunda pergunta igualmente importante: Meu número é bom ou ruim?
Um custo de R$ 0,34/kg de ATR, isoladamente, diz pouco.
Ele ganha significado quando comparado onde todos estão utilizando a mesma metodologia de cálculo. Esse é um dos grandes desafios do benchmarking no setor sucroenergético.
O valor do benchmarking está em permitir resposta para perguntas melhores.
Por que minha operação está acima da referência regional?
A diferença está no investimento por hectare? Na produtividade? Na qualidade?
Em determinada operação? Em determinado insumo?
A pergunta deixa de ser: “Quanto custa o trato de soqueira no setor? E passa a ser, e os melhores, como estão?”
No fim, a boa gestão começa com uma pergunta simples:
Você conhece o seu custo em R$/kg de ATR e sabe exatamente por que ele está acima ou abaixo da média da sua região? Porque, quando estamos falando de milhares de hectares e milhões de quilos de ATR, centavos nunca são apenas centavos.
Glauber dos Santos
Artigo publicado em 21/10/2026 .