São raros os dias que não ouço: “Botão, e a Raízen?”

04/03/2026 | Mercado | Por João Rosa - Botão

Os “roxos” sempre deram conversa nesses 15 anos de existência. Desde sua formação, na união dos negócios entre Shell e Cosan; passando pela ampliação com a aquisição das unidades da Biosev; pela abertura de capital; pela entrada no etanol 2G; pela criação da OXXO… alguns exemplos, entre tantos outros.

Sem contar as histórias da própria Cosan, que inevitavelmente acaba associada à empresa. Nesse balaio de confusão — onde muitos acham que é “tudo a mesma coisa” (e não é) — as movimentações junto à Vale talvez sejam o exemplo mais recente dessa associação e de como o complexo “Rubens Ometto”, digamos, sempre esteve sob os holofotes.

Holofotes que permanecem acesos — infelizmente, por motivos diferentes. Alavancagem. Endividamento. Reestruturação. São termos que passaram a dominar as conversas. Somam-se a isso preços mais baixos no setor nos próximos anos e margens pressionadas, e com isso o temor de uma possível recuperação judicial.

Com o pano de fundo de que “a diferença entre o gênio e o louco é o resultado”, ao som de Coração Blindado, do Engenheiros do Hawaii (veja a letra), a resposta que dou quando me perguntam o que vai acontecer é simples: Não sei. Aliás, ninguém sabe.

Nas redes, uma enxurrada de análises e opiniões. Algumas excelentes, fundamentadas. Outras tantas, superficiais, baseadas no “eu acho” e com sentimento de “torcida”. No fim, ninguém sabe.

Digo isso porque é muito difícil saber o que acontece na “Faria Lima”. Se o cerne do problema é o endividamento, é ali — no covil do capitalismo — que estão os principais desafios. E nesse ambiente, movido a especulação, o que não falta é interesse. Enquanto uns trabalham para encontrar saídas, outros torcem para que a “vaca vá de vez pro brejo”. Afinal, no mercado financeiro, nada é mais atraente do que comprar barato.

O que eu sei — e estou vendo — é a lição de casa sendo feita no campo. Que, convenhamos, é o coração do negócio: os canaviais e a eficiência operacional. A mudança de postura é evidente. Investimentos na lavoura, busca por eficiência, melhorias na gestão do banco de terras e relações mais estruturadas e com fornecedores, são algumas das coisas que ouço e vejo nas minhas rodadas. Ponto importante: apesar das dificuldades, não ouvi relatos de inadimplência com produtores ou proprietários de terra. Os compromissos vêm sendo cumpridos.

O trabalho está sendo feito. O problema é que, na cana, os resultados não aparecem da noite para o dia. Demoram — para o bem e para o mal. A Raízen não chegou aonde chegou de uma hora para outra. Por que a solução dos problemas seria diferente?

Enfim, para quem está de fora e não está no time da especulação da “vaca”, só resta acompanhar com prudência e torcer. Mais do que torcer pela Raízen, é torcer pelo setor. Porque quando uma gigante oscila, todo o ecossistema sente.

João Rosa - Botão

Artigo publicado em 04/03/2026 .